É hora do recreio na Escola Municipal Ângela Antonia Misga de Oliveira, localizada no Jardim Josiane, em Almirante Tamandaré, Região Metropolitana de Curitiba. Raquel, 9 anos, surge na sala da direção acompanhada das amigas e uma caixa amplificadora de som. É um sinal para a coordenadora pedagógica, Michele Cristina Pinto Chromiec, emprestar seu celular às meninas, que já decoraram a senha.

No pátio onde fica o parque – construído pelo projeto Territoriar, do Centro Marista de Defesa da Infância – Raquel conecta o smartphone à caixa de som, coloca para tocar uma música previamente aprovada por Michele e começa a ensinar zumba, exercício aeróbico inspirado principalmente pela dança latina bastante popular nas academias brasileiras. Não demora muito e a menina é seguida por crianças do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental 1 – o ciclo vigente na escola.

Assim, na base da confiança mútua, interação, com muita escuta e poder de fala, as crianças transformaram a escola Ângela Misga que, antes do projeto Territoriar, ostentava um cenário bem diferente. “A gente não tinha esse costume de dar voz à criança. Alguns dias entro na minha sala e eles estão na minha mesa, brincando de diretor. E não fazem de forma desrespeitosa. Eles entram e sentam, pois sabem que o espaço é deles”, conta a diretora Claudia Silvana Florêncio. “A escola ficou mais colorida”, acrescenta Michele.

A instituição de ensino tem 236 alunos, divididos em dois turnos, e foi uma das 15 escolas públicas do Brasil integrantes da primeira etapa do Territoriar, entre 2015 e 2016. Quatro anos depois da ressignificação do parque e dos estudos realizados com a comunidade educativa, ela se mantém como um bom exemplo de instituição que soube incorporar em seu processo pedagógico a essência do projeto – muito além das melhorias físicas.

Os Territórios dos Saberes em Tamandaré

Inspirada pelo Territoriar, a Prefeitura Municipal de Almirante Tamandaré criou uma política pública voltada para a ressignificação dos espaços pedagógicos, os chamados Territórios dos Saberes. A temática já fazia parte dos interesses do cientista social e secretário municipal de Educação e Cultura, Jucie Parreira.

Ao assumir a secretaria, em 2017, ele já acumulava a experiência como professor na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) nas áreas de antropologia dos desenvolvimentos, empreendedorismo social e gestão do impacto social, e a atuação em escolas e territórios vulneráveis de Almirante Tamandaré. “O Territoriar foi o principal indutor dessa mudança”, garante.

Ao implementar os Territórios dos Saberes, o secretário propôs a divisão do munícipio em cinco grandes áreas, de acordo com a ocupação sócio espacial. “As realidades em cada território são muito distintas. Cada um tem uma gramática própria, ou seja, estratégia, percepções e gestão de aprendizagem singulares”, explica. Essa inovadora política pública, em vigor há dois anos, trouxe “ganhos imensos” para os espaços pedagógicos. A começar pela participação da família e da comunidade no ambiente escolar. Na Escola Municipal Ângela Antonia Misga de Oliveira, por exemplo, as coloridas pinturas expostas em duas paredes do colégio foram feitas pela mãe de uma das alunas.

Segurança é outro ponto levantado pelo secretário. “Ao trabalhar entre os vizinhos o pertencimento à comunidade escolar e articular eventos como a Festa Junina, dizemos ‘a escola é de vocês’, é uma extensão da casa”, esclarece. E como os Territórios dos Saberes refletem na sala de aula? “A aprendizagem melhora quando a gente passa a associar a realidade de cada um com o que é ensinado. Quando a escola dialoga com o território ao redor se constitui parte da comunidade”, finaliza.

Era uma vez um parque

Fundada em 1993, a escola Ângela Misga nunca teve um parque para brincadeiras. Logo nos primeiros anos ganhou do então secretário de Educação do município um escorregador e um trepa-trepa que, ao longo dos 26 anos seguintes, foram corroídos pelo tempo, mato e ferrugem. Quando a escola foi selecionada, em 2015, para participar do projeto Territoriar, Claudia e Michele nem imaginavam as consequências pela frente. “No início a gente achou que era apenas dinheiro. Depois vieram as ações, as escutas, os comitês. Então entendemos que faríamos parte dessa transformação”, lembra a diretora.

Conforme explica Bárbara Pimpão, gerente do Centro Marista de Defesa da Infância e responsável pelo projeto Territoriar, a escolha das escolas se dá por meio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Ministério da Educação (MEC) em parceria com a prefeitura municipal. “Apresentamos para as secretarias a indicação de aproximadamente 10 escolas. As secretarias consultaram as direções para adesão observando a proposta do projeto e as possibilidades de mobilização da comunidade educativa.”, complementa Bárbara.

A primeira tarefa foi criar um comitê multidisciplinar para representar a escola, não só com professores, mas também com outros colaboradores, comunidade, educandos e seus pais. Juntos, e com o apoio de uma equipe multidisciplinar do Territoriar, composta por pedagogos, analistas e arquiteta, precisariam identificar as carências da instituição e propor soluções.

“Muita gente queria a reforma de uma sala de aula, mas ‘batemos o pé’. A gente entendia que a reforma era obrigação da Prefeitura. Queríamos um espaço para as crianças brincarem”, conta a diretora. As próprias crianças foram ouvidas e, depois de muito debate, chegaram ao consenso.

Assim como a turma da zumba, outros grupos surgiram. As crianças que gostam de desenhar volta e meia entram na sala de Claudia com representações de animais, personagens infantis, automóveis, barcos e outras figuras rabiscadas. No intuito de valorizar o talento de cada um, os professores imprimem esses desenhos – no lugar dos comuns temas da Disney, por exemplo – e distribuem entre os alunos da escola, que aproveitam o recreio também para colori-los.

3ª etapa do projeto Territoriar

Criado em 2015 pelo Centro Marista de Defesa da Infância para ressignificar espaços educativos com a participação da comunidade escolar, o projeto vem contribuindo para o desenvolvimento integral das crianças, na medida em que faz uso de uma metodologia participativa, focada em direitos e uma escola de qualidade social.

O fim da terceira etapa do projeto, em abril, foi marcado pelo lançamento do livro digital “Educação integral e as práticas em desenvolvimento”, prefaciado pelo educador português José Pacheco. Disponível gratuitamente em formato digital, o e-book tem 86 páginas e é voltado a profissionais e agentes da educação pública de todo o Brasil. Tem o objetivo de fortalecer a formação desse público na medida em que provoca reflexões sobre o tema a partir da visão de inúmeros estudiosos no assunto.

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Sobre o Centro Marista de Defesa da Infância          

Criado em 2010, o Centro Marista de Defesa da Infância, vinculado à Rede Marista de Solidariedade (RMS), atua na defesa dos direitos de crianças e adolescentes, por meio do fortalecimento do Sistema de Garantia de Direitos. Integram o portfólio da instituição o CADÊ Paraná (plataforma virtual que reúne dados e informes periódicos temáticos sobre crianças e adolescentes), os projetos Territoriar e Brincadiquê? Pelo Direito ao Brincar, e a campanha nacional sobre a autodefesa de crianças contra enfrentamento à violência sexual, Defenda-se!. A instituição também desenvolve análises sobre o orçamento público do Paraná e promove ações de incidência política em articulação com governos, redes, fóruns, comissões e conselhos de Direito.